FARMAREXIA
Um novo tipo de Transtorno Alimentar
Uso de fármacos para redução do peso por pessoas sem excesso de peso.


PHARMAREXIA
A New Type of Eating Disorder
Use of drugs to reduce weight by people without excess weight


Autores:
Izidoro de Hiroki Flumignan
izidoroflumignano@gmail.com
Médico e professor do Curso de Especialização do Curso de Transtornos Alimentares da PUC-Rio.
Dirce de Sá
dircedesafreire@gmail.com
Psicóloga e Psicanalista, coordenadora do Curso de Especialização do Curso de Transtornos Alimentares da PUC-Rio.


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RESUMO: A Farmarexia é um transtorno alimentar emergente caracterizada pelo uso compulsivo de medicamentos para perda de peso por indivíduos que não estão acima do peso, causados pela associação da dismorfia com a gordofobia.

ABSTRACT: ABSTRACT: Pharmorexia is an emerging eating disorder characterized by the compulsive use of weight-loss medications by individuals who are not overweight, driven by the association between body dysmorphia and weight stigma (fatphobia).



A farmarexia é um transtorno mental que afeta indivíduos com peso normal que utilizam fármacos para redução ponderal. Esse transtorno parece estar especialmente prevalente em mulheres e orientadas pelos padrões estéticos gordofóbicos que também apresentem dismorfia na tentativa de se resguardar da pressão social em face da obesidade.

Assim, a farmarexia pode acarretar implicações significativas para a saúde física e mental desses indivíduos e como os demais transtornos obsessivos compulsivos há uma inscrição genética em que os fatores ambientais expressam seu aparecimento. Este transtorno reflete uma interseção complexa entre a saúde mental e padrões sociais de estética e por isso, requer um tratamento multidisciplinar.

A concepção e descrição da farmarexia enfatiza a intrincada natureza desse transtorno alimentar emergente. Ao investigar o uso indiscriminado e impróprio de medicamentos para controle de peso, especialmente sem supervisão médica, sublinhamos os riscos potenciais associados à busca compulsiva por padrões estéticos culturalmente estabelecidos.

A conscientização sobre a farmarexia é essencial não apenas para os profissionais de saúde, mas também para a sociedade em geral, visando promover uma compreensão mais abrangente e empática dos desafios enfrentados por aqueles que sofrem com o transtorno.

Ademais, a implementação de estratégias preventivas, o estímulo à aceitação pessoal e a desmitificação de padrões estéticos inalcançáveis são elementos fundamentais para reduzir a incidência desse transtorno.


O crescimento exponencial de consumo de fármacos é uma das características do comportamento humano das últimas décadas na busca do imediatismo da eliminação de qualquer desconforto. Nesse contexto, tem ocorrido uso crescente de medicamentos para redução do peso no contexto pandêmico da obesidade que ora presenciamos.

Como se sabe, a obesidade, com sua etiologia complexa e multifatorial, é caracterizada pelo acúmulo excessivo e prejudicial da gordura corporal. Sua fisiopatologia desencadeia complicações orgânicas graves e tem desafiado a saúde física e mental ao expor o paciente a questões sanitárias e psicossociais complexas.

Frente a tantos desafios, as pessoas sem excesso de peso têm recorrido a fármacos com o objetivo de aliviar-se da fobia psicológica e social que o excesso de peso tem ocasionado. Diante deste cenário, a disponibilidade de medicações cada vez mais eficazes para a redução do peso sem a necessidade de ajustes dos fatores causais comportamentais e ambientais está trazendo a saúde pública mais um desafio a ser enfrentado.

Neste contexto nosológico o discurso médico associou o excesso de peso com doenças e inadvertidamente compreedeu a magreza como indicador de saúde. Foi na década de 60 que Claude Fischler, cientista social francês, introduziu o termo "lipofobia" para descrever a aversão à gordura e a promoção da silhueta magra como padrão de saúde, criando aspectos culturais higienistas.

A seguir veio a obesofobia como a situação do excesso de peso indesejavel e a gordofobia que por sua vez, por percepções erráticas, passou a criticar os corpos dos outros permeando com interações sociais marginalizadoras aos indivíduos que não se enquadrassem nos padrões corporais impostos pela sociedade. 

A gordofobia é a expressão do preconceito as pessoas com excesso de peso, até mesmo não obesas, trazendo um sentimento de rejeição ao que não se enquadra ao magro, tornando-se um fator causal para o desenvolvimento de muitos tipos de transtornos alimentares. Essas transformações sociais reverberaram profundamente no comportamento social impactando o cotidiano das relações interpessoais.

Assim, a gordofobia foi ampliada pelas mídias sociais na busca de um padrão de corpo magro considerado ideal para atingir uma pretensa felicidade determinando muitas vezes uma pressão por um padrão estético muitas vezes inalcançável e se estabeleceu como condição fundamental para aceitação social e simultaneamente o repúdio por pessoas com qualquer nível de excesso de peso mesmo sem qualquer relação com a obesidade.

Desta forma foi criada a situação paradoxal de uma sociedade obesogênica e obesofóbica, sendo esse
que este paradoxo também propiciou um incremento na incidência dos transtornos alimentares, incluindo a bulimia, anorexia, ortorexia e agora, a farmarexia.

Tais condições causam sofrimento físico e mental, com estabelecimento de complicações e até mesmo óbitos nos casos extremos, a maioria relacionadas com a dismorfia.

Embora esteja sendo abordada pela primeira vez neste artigo, a farmarexia iniciou-se com o advento das anfetaminas. A primeira foi obtida em laboratório foi desenvolvida em 1887 por Lazar Edeleanu, químico da Alemanha e foi usada pelos soldados de vários países na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) para mantê-los mais tempo acordados e com redução da sensação de fome e fadiga.

Em 1959 a fentermina, primeira anfetamina aprovada pelo FDA como inibidora do apetite foi colocada a venda nos EUA. Com a expansão da obesidade naquele país as anfetaminas, cada vez mais procuradas, se multiplicaram em várias classes diferentes, como a anfepramona, fenfluramina, dexfenfluramina, mazindol, entre outros, todas com ações anorexígenas e catecolaminérgicas atuando nos de neurotransmissores dos centros cerebrais que regulam o apetite e a saciedade. 

Nas décadas seguintes o discurso médico cada vez mais enfatizou sobre as comorbidades relacionadas a obesidade e essa dinâmica favoreceu a interseção complexa entre aumento do peso, doenças e medicamentos. Desta forma, o corpo esbelto passou a ser relacionado com a saúde e desta, com a beleza. Tais circunstâncias criaram um ambiente favorável ao início da farmarexia pelo consumo das anfetaminas por pessoas, principalmente mulheres, sem excesso peso, motivadas pela busca de uma beleza impositiva.

Com a expansão da pandemia da obesidade novas classes de medicamentos redutores de peso mais eficazes e seguros, com menos efeitos colaterais estão sendo lançados pela indústria farmacêutica.



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